O Evangelho segundo “Stranger Things”


por

*Artigo de Wesley Walker, publicado originalmente na revista Relevant.

Desde o ano passado você provavelmente ouviu falar muito, e possivelmente assistiu, o novo sucesso da Netflix, Stranger Things. É um seriado de sucesso, escrito pelos irmãos Duffer e estrelado por Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard e Millie Bobby Brown.

O teólogo e crítico social Peter Leithart disse certa vez: “O diabo não tem histórias”. O que ele quer dizer é que as histórias, não importa quão assustadoras ou trágicas possam ser, pegam emprestado elementos de uma história mais profunda e verdadeira.

Acredito que existe um motivo pelo qual a história atrai muita atenção e parece familiar para muita gente, quer elas percebam ou não.

Stranger Things, ‘coisas mais estranhas’ numa tradução literal, nos lembra que a história de salvação de Deus é o modelo original para todas as histórias humanas. O roteiro está cheio de metáforas, símbolos e mesmo referências veladas à história mais convincente do universo, o Evangelho.

Símbolos ocultos

A protagonista do serie é uma menina chamada Onze. Trata-se claramente de uma figura de Cristo (Seu apelido, El, significa “Deus” em hebraico). A jovem tem uma misteriosa história de nascimento e seu verdadeiro pai nunca é mencionado, embora sua mãe faça uma breve aparição na história.

Onze possui poderes telecinéticos, aparentemente milagrosos. Enquanto estava presa em um laboratório, os funcionários do governo “tentam” fazê-la usar seus poderes para matar um gato, mas ela se recusa. Poderíamos traçar paralelos com Satanás tentando a Jesus no deserto (Mateus 4: 1-11).

Semelhanças

Esse mundo retratado pelo seriado se parece com a compreensão cristã do mundo em que vivemos. Existem duas dimensões interligadas: o primeiro é o mundo idílico da década de 1980, cheio de nostalgia que quase imediatamente faz com que os espectadores lembrem de dias onde tudo parecia mais simples.

O segundo é o chamado ‘mundo invertido’. Ele é retratado como um mundo de morte. Sua atmosfera é tóxica, ele está cheio de monstros predadores que se alimentam de carne. O local acaba sendo uma espécie de prisão para Will, um menino levado para lá pelo monstro Demogorgon.

Poderíamos dizer que esta realidade lembra muito a compreensão cristã do mundo. Em um nível, este mundo é lindo porque é a criação de Deus, mas ao mesmo tempo é aterrorizante por sua realidade corrompida depois da queda. As duas realidades se misturam e se contrastam na Bíblia.

Guerra dos mundos

Em seu livro “Onde estava Deus no tsunami?”, o filósofo ortodoxo David Bentley Hart explica a tragédia desta maneira:

O cristão deve ver duas realidades ao mesmo tempo, um mundo dentro de outro: um mundo como todos nós o conhecemos, com toda a sua beleza e terror, grandeza e tristeza, prazer e angústia. E um outro mundo em sua primeira e última verdade, não é simplesmente “natureza”, mas “criação”, um mar infinito de glória radiante com a beleza de Deus em todas as partes, inocente de toda a violência. Ver a realidade desta maneira é se alegrar e lamentar ao mesmo tempo, perceber o mundo como um espelho de beleza infinita, embora vislumbrando através do véu da morte; é ver a criação acorrentada, embora permaneça linda como no início dos dias.

Discípulos e encarnação

Voltando a Stranger Things, quando Onze escapa das mãos do governo, passa o tempo com um grupo adorável de meninos desajustados, um tipo dos doze discípulos, um grupo composto por aqueles que eram odiados pelos seus iguais (como Mateus, o cobrador de impostos) ou apenas pobres (como os pescadores da Galileia). Onze até coloca a roupa da irmã de Mike, o que alude, penso eu, à Encarnação [João 1: 14ª, veja também Hebreus 2: 14-15] pois: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”).

Isso não é tudo

Onze não consegue atender às expectativas de seus amigos, porque não resgata Will do mundo invertido do jeito que eles esperavam. Por causa disso, o grupo a rejeita. É quase impossível não ver as semelhanças com a forma como Jesus foi rejeitado pelos líderes religiosos judeus porque não cumpriu as expectativas messiânicas.

Onze passa um tempo isolada (no deserto?) onde é sustentada por waffles, uma alusão bastante clara ao maná enviado a Israel de Deus enquanto eles estavam no deserto e prefigurava a ideia de comunhão.

Batalhas sobrenaturais

Ao longo da primeira temporada, vimos duas forças do mal. A primeira eram as forças do governo que caçam Onze. A segunda é o monstro sanguinário do mundo invertido. Ele caça humanos e animais, mostrando que o mal penetra em nossa realidade hoje em dia e traz dor ao mundo natural. Ambas as forças são emblemáticas, das forças elementares que estão em constante conflito (Efésios 6:12, Colossenses 2:15).

Unidade

Em uma cena impressionante, Onze encontra o monstro através de sua habilidade telecinética. Colocada no chão de uma piscina, em uma posição que lembra a cruz, ela “desce” para um abismo mental onde ela fica cara a cara com a morte e o monstro. Em um momento de medo, ela grita por Deus e o personagem de Winona Ryder responde: “Estou aqui com você”. É um momento bonito que remeta à unidade do Pai e do Filho.

O xerife Hopper assume o papel de Judas. Fazendo um acordo com o governo, ele divulga a localização de Onze. As autoridades vieram busca-la na escuridão da noite com armas em punho, como a tropa que veio até Jesus no Jardim de Getsêmani (Mateus 26: 47-56). Seus amigos barulhentos, sem sucesso, tentam defendê-la, tal como os apóstolos.

Salvação

Ao longo da série, Onze realiza atos miraculosos e salvíficos que fazem com que ela sangre pelo nariz. Estes pressagiam o final, onde Onze, derramando muito sangue, trava uma batalha contra a besta insaciável que caça seus amigos.

Para salvá-los da morte, ela abre mão da sua vida (João 15:13). Somente através do seu sacrifício, aqueles que ela ama são salvos. Em 1 João 3:16, João resume o significado da morte de Cristo, uma penalidade paga em favor daqueles que Ele ama: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos”.

Vida após a morte?

Assim como os Evangelhos, a história de Stranger Things não acaba simplesmente com a morte do protagonista.

Numa das cenas finais, o xerife Hopper deixa uma caixa de waffes na floresta, o que implica que Onze ainda está vivo. Acredite ou não, a caixa parece o Tabernáculo (ou sacrário) das igrejas católicas, onde eles armazenam a hóstia consagrada da Eucaristia.

Uma vez que ela representa o corpo de Cristo, isso nos diz algumas coisas. Primeiro, Cristo ainda está vivo e presente conosco. Em segundo lugar, sua ingestão é uma maneira pela qual lembramos que somos parte do Corpo de Cristo. Finalmente, lembra que comeremos com ele novamente após Cristo retornar em glória.

O retorno

No final da primeira temporada de Stranger Things ficamos igualmente imaginando o que Onze fará quando voltar para estar com seus amigos de novo, assim como nós, que estamos em Cristo, esperamos o dia em que nosso salvador retorna.

A segunda temporada estreou dia 27 de outubro, quais aspectos do evangelho ela trará? Sem querer contar spoilers, vamos torcer para que seja tão bonita quanto a primeira.

Você também pode gostar de ler
Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *